A única exibição de maior destaque foi de um filme vindo de um país com pouca tradição cinematográfica: a República Dominicana, que apresentou “Jean Gentil”, de Laura Guzmán e Israel Cárdenas. Recebido com ressalvas pelo escasso público presente dentro da sala de cinema, ele precedeu o longa convidado de encerramento, o brasileiro “Sudoeste”, de Eduardo Nunes, que foi representado no festival pela protagonista e produtora Simone Spoladore. Realizado em preto e branco, essa história intimista sobre uma mulher que busca um sentido para a própria vida durante um único dia numa vila isolada no litoral brasileiro angariou alguns admiradores, mas mesmo esses conseguiram defendê-lo com muito ardor. Vale mais como beleza estética do que pelo conteúdo em si.
Por fim, o Festival de Gramado 2011 chegou ao fim. E nos anos anteriores o que costumava acontecer era uma pulverização da premiação entre todos os concorrentes, o mesmo não se repetiu dessa vez. Na mostra nacional de curtas-metragens, o grande vencedor foi o gaúcho “Céu, Inferno e Outras Partes do Corpo”, de Rodrigo John, com os kikitos de Melhor Filme, Roteiro e Prêmio da Crítica – vale ressaltar que na mostra local esse mesmo curta ganhou apenas o prêmio de Edição de Som. Em quantidade de kikitos, no entanto, quem se saiu melhor foi “Um Outro Ensaio”, de Natara Ney, que ganhou os prêmios de Direção, Trilha Musical, Montagem e Júri Popular. As interpretações foram para nomes consagrados: José Wilker foi o Melhor Ator, por “A Melhor Idade”, e Dira Paes foi a Melhor Atriz, por “Ribeirinhos do Asfalto” (que ganhou também como Direção de Arte). “Polaroid Circus” foi a Melhor Fotografia, “Rivellino” saiu com o Prêmio Especial do Júri e “A Mula Teimosa e o Controle Remoto” foi escolhido Melhor Filme segundo o Júri de Estudantes.
Já entre os latinos, o resultado foi mais equilibrado entre todos os concorrentes – apenas um dos sete selecionados saiu de mãos abanando. Os melhores filmes da mostra, o peruano “Las Malas Intenciones” e o chileno “A Lição de Pintura”, tiveram que se contentar com reconhecimentos coadjuvantes: enquanto o primeiro ganhou somente o Prêmio Especial do Júri, o segundo ficou com os kikitos de Fotografia e de Melhor Filme segundo o Júri de Estudantes. O grande vencedor, no entanto, foi o argentino “Medianeras”, com os kikitos de Melhor Filme, Júri Popular e Direção, para Gustavo Taretto. Esse último troféu foi dividido com Sebastian Hiriart, de “A Tiro de Piedra”, longa que ganhou também os kikitos de Ator (para Gabino Rodriguez, em sua segunda vitória consecutiva em Gramado) e Roteiro. A Melhor Atriz foi Margarida Rosa de Francisco (outra antiga premiada na Serra Gaúcha), por “Garcia”, enquanto que o Prêmio da Crítica foi para “Jean Gentil”, numa das maiores surpresas da noite.
E por fim, o momento mais esperado de toda essa maratona cinematográfica: os premiados na mostra nacional competitiva de longas-metragens! Dos sete filmes selecionados, três passaram por Gramado sem nenhum reconhecimento – um resultado justo e surpreendente! “Uma Longa Viagem”, de Lúcia Murat, foi o grande vencedor, arrebatando os kikitos de Filme, Ator (Caio Blat, repetindo o prêmio já ganho no ano passado por “Bróder”), Direção de Arte, Júri Popular e Júri Estudantil. Ou seja, dos quatro troféus de Melhor Filme que o Festival de Gramado distribui (um verdadeiro absurdo sem a menor lógica!), ganhou três – perdeu apenas o Prêmio da Crítica, que ficou com “Riscado”, premiado também como Atriz (Karine Telles, já premiada antes no Festival do Rio e a maior barbada deste ano), Diretor (Gustavo Pizzi), Trilha Musical e Roteiro. Cada um ficou com cinco kikitos, um resultado bem parelho e equilibrado.
Se “A Longa Viagem” é um filme muito fácil de se gostar – porém de rasa profundidade e portador de decisões e posicionamentos duvidosos – “Riscado” é uma obra mais autoral, que deve ter conquistado o júri por esse viés. Em terceiro lugar esteve o pseudo-documentário “As Hiper Mulheres”, que levou os kikitos de Prêmio Especial do Júri (uma espécie de troféu de consolação) e Montagem, enquanto que “O Carteiro”, que possuía potencial para disputar de igual categorias como Trilha Musical de Interpretação Masculina, teve que se contentar apenas com a Fotografia de Roberto Henkin. Um resultado aquém das qualidades do filme, mas que ainda assim merece ser comemorado. O Festival de Cinema de Gramado termina a sua trigésima nona edição com vários problemas – uma seleção de longas nacionais completamente irregular, latinos excelentes mas que despertam pouco interesse no público, um culto ao tapete vermelho e ao número cada vez maior de pequenas celebridades – e muitos caminhos a serem trilhados. Resta torcer que para o próximo ano, quando se comemora a marcante data de 40 anos, muito desse trajeto já tenha sido percorrido e que melhorias significativas se apresentem, colaborando para preservar e enaltecer este que é um dos maiores eventos cinematográficos de todo o Brasil.
39º Festival de Cinema de Gramado
Publicado em: 27 de agosto de 2011Postado em: NOTÍCIAS, NOTÍCIAS - Cultura, NOTÍCIAS - Educação, NOTÍCIAS - Torres



















